segunda-feira, 13 de junho de 2011

Chega de Imortalidade

Torcidas organizadas de futebol tem um grande talento para literatura cômica não intencional. Faixas de apoio e pixações de protesto costumam ser afirmações passionais desprovidas de senso de ridículo, com erros gramaticais improváveis e construções dadaístas.

Não é a mesma coisa com cinéfilos

Neste meio artístico, uma torcida merece destaque especial: a do Grêmio de Porto Alegre. São eles os responsáveis pela imponente faixa: JAMAIS NOS MATARÃO. Mas mais importante ainda, foram eles que criaram uma das frases mais filosoficamente profundas da história dos protestos pós-eliminação da Libertadores:

Leia isso e repita pra si mesmo. “Chega de imortalidade, queremos títulos”. Faz você para pra pensar não? O que é imortalidade? O que é tão importante pra se abrir mão da vida eterna? Uma existência fugaz, porém gloriosa, é melhor do que um infinito sem brilho?

E com o Lúcio na lateral?

Monte Olimpo

Pense por exemplo em Hefesto. Ele era um deus grego, um imortal do Olimpo. Mas ele também era feio, coxo e o poder especial dele era ser metalúrgico. Ele era tão feio que a mãe dele jogou ele fora.

Além disso, ele não era muito esperto. Dizem que foi ele quem forjou o raio de Zeus e o Tridente de Poseidon. Agora, por que o imbecil não fez essas coisas pra ele mesmo e dominou o mundo ao invés de viver martelando ferro na porra de um vulcão?

Outro detalhe da vida de Hefesto: ele era casado com a Afrodite. Uma boa, não? ERRADO, por que ela odiava o lazarento por ele ser um feioso e o traía com Ares. Hefesto ficou putaço quando descobriu e armou um plano.

Com seu grande talento de ferreiro, ele teceu uma teia de metal bem fina, praticamente invisível, mas de alguma forma pesada o bastante para aprisionar quem ficasse sob ela. Ele esperou Afrodite e Ares se pegarem pelados e tacou a rede em cima dos dois.

Ai ele chamou todos os deuses do Olimpo pra ver aquela pouca vergonha e humilhar os dois amantes. Sabe o que os deuses fizeram então? Riram da cara do Hefesto por ele ser um puta corno.

Seria 1 boa?

Falando em existência patética, eu estava folheando a Revista Veja esses dias. A matéria de capa era sobre a busca da medicina para aumentar a longevidade da vida humana, rumando a imortalidade. Também tinha uma foto da Rihanna quase pelada.

Eu acho isso horrível. Se todos parassem de morrer, o mundo ia entrar em colapso, ficar sem recursos naturais e cheio de pessoas famintas. E também a sua família ia crescer sem parar, se enchendo de mais gente com que você ia ser obrigado a se socializar de maneira constrangida algumas vezes por década.

Aff, nem tava pelada

Agora, se só você fosse imortal, ia ser tão horrível quanto. Você ia se tornar uma aberração, jamais envelhecendo, jamais forjando laços profundos com ninguém e ia ter uma percepção bizarra do tempo.

Tipo, se você tem 3.000 anos, ficar em casa vendo tv e do nada 30 anos se passam é quase o equivalente a ter 20 e ficar uns dois dias sem fazer nada. Até que um dia o Sol ia entrar em supernova, e a Terra seria engolida com você dentro. E você ia ficar feliz por isso.

Já é

A imortalidade não é ficção no mundo animal. Não ao menos pra uma água viva chamada Turritopsis nutricula, o único animal capaz de reverter seu ciclo de vida. Pelo que eu entendi (não entendi porra nenhuma) quando ele chega na sua maturidade sexual, ela reverte seu ciclo biológico, e meio que dá a luz a si mesmo de novo.

Isso significaria viver a vida inteira da infância a puberdade eternamente, incluindo a parte de só fazer sexo consigo mesmo. Mas ao invés de meias manchadas, você daria a luz a você mesmo.

E você ia ser assim

Christopher Lambert

Highlander é um puta filme sobre imortais espadachins que cortam as cabeças uns dos outro. Highlander 2 é a pior seqüência da história da humanidade. Eles inventam que os imortais na verdade são alienígenas vindos de um planeta de imortais e é tudo tão retardado que eles fizeram Highlander 3 e ignoraram totalmente a história do 2.

A verdade é que um dia nos MATARÃO. Talvez seja o tempo, um acidente de carro ou algo constrangedor envolvendo nudez e um cinto em volta do pescoço. Mas antes assim do que sem títulos.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ela, a Ressaca

Dia seguinte. O álcool foi embora, te deixou sozinho e você quer morrer.

Não se sinta especial por esta sensação de merda. Ela, a Ressaca, assola a cabeça da humanidade desde os primórdios da civilização. Se nós deixamos de ser caçadores nômades e inventamos a agricultura, foi apenas porque começamos a cultivar cereais, produzir cerveja e ficar bêbados ou com ressaca demais pra caçar. E desde então temos nos perguntado: como fazer essa merda passar?

Curas ao longo da história

A humanidade tentou todo tipo de receita caseira nos tempos pré-engov. Os antigos assírios usavam uma mistura de mirra e bicos de aves moídos. Os gregos devoravam canários fritos. Os mongóis comiam olhos de ovelhas conservados em óleo. Na Rússia o lance era pegar uma sauna e suar todo o álcool pra fora.

O objetivo deste post é testar cada uma dessas técnicas pra ver se funcionam. Quer dizer, era, se eu não tivesse ficado com nojo de comer olho de ovelha em conserva e com dó de fritar o canário e amassar o bico dele. E também porque eu não sei o que é mirra, além de ser um presente boladão que Jesus ganhou quando nasceu. Não sabia dessa malandragem anti-ressaca.

SÓ CONHECIA A MALANDRAGEM DO INCENSO KKKK

A história da sauna eu também descartei, por diferenças culturais. Não que eu tenha algo contra russos, inclusive tenho amigos russos. Então vamos falar de um tratamento muito mais antigo e simples: continuar bebendo.

Hair of the dog: é assim que os gringos chamam a técnica de derrotar a ressaca com mais álcool. O nome vem de uma antiga receita anti-rábica que consistia em colocar um pouco de pêlo de cachorro na mordida, o que faz com que o uso medicinal de sanguessugas não pareça tão retardado.

E sim, também já tentaram curar ressaca com sanguessugas

Esse método era utilizado por Ernest Hemingway e Hunter S. Thompson, dois grandes escritores norte-americanos. Outra coisa que eles tiveram em comum foi cometer suicídio via tiro de espingarda na cabeça, mas associar uma coisa a outra seria pura especulação e irresponsabilidade jornalística.

Afinal de contas, quem nunca emendou uma bebedeira na outra e adiou aquela ressaca para segunda-feira, ou deu uns golinhos só pra enganar a cabeça?

Conclusão: ÀS VEZES O MLEHOR É DEIXAR QUE DEUS CURE A RESSACA NATURALMENTE

VOCÊ SABIA?

Que a coca-cola inicialmente foi comercializada como remédio pra ressaca? Além disso, a bebida prometia curas milagrosas para gastrite, resfriado, enxaquecas, exaustão e impotência.

Claro que tudo isso era balela, se bem que um dos ingredientes originais era cocaína e todo mundo sabe que pó cura ressaca, CALMA GENTE, quem me contou isso foi um conhecido meu, inclusive hoje em dia ele tá reabilitado e trabalhando com crianças carentes num projeto social. E ele também me disse que isso de curar impotência só pode ser papo furado.

MAS É SÓ TRISTEZA

A MAIOR RESSACA DE TODOS OS TEMPOS

A ressaca mais duradoura da história ocorreu em 2007, em Glasgow, na Escócia. Um homem de 37 anos foi ao hospital dizendo não estar enxergando direito e com uma puta enxaqueca que não passava.

Os médicos notaram os sinais de abuso de álcool. Foi então que o sujeito revelou ter tomado 35 litros de cerveja em apenas quatro horas. O motivo não poderia ter sido outro: o amor.

A bebedeira pós-chifre conduziu nosso amigo escocês a uma condição conhecida por "cerebral venous sinus thrombosis", uma trombose das veias cerebrais. O resultado disso foi 1 (UM) mês de internação e o recorde mundial de ressaca.

PARABÉNS!!

E quando tem trampo no dia seguinte?

Às vezes exageramos no dia errado e passamos pela provação de ter que levantar cedo e falar e agir como um adulto funcional em meio a uma ressaca. Mas na pior nas hipóteses, você vai fazer um trampo meia boca, talvez tomar uma bronquinha, mas ninguém vai morrer por causa do seu estado. A não ser que vocês seja um cirurgião, trapezista ou piloto de Fórmula 1, o que nos leva a história de James Hunt.

Hunt é reconhecidamente um dos maiores porras-loucas da história do automobilismo. Suas proezas envolvendo mulheres, drogas e cachaças o tornaram tão lendário quanto sua habilidade na pista. Um exemplo: uma vez ele vendeu sua esposa para o ator Richard Burton por um milhão de dólares.

Acima: sendo o cara mais foda do universo

Na temporada de 1976, o piloto disputava o título mundial contra Niki Lauda. Nas duas semanas antes da prova decisiva no Japão, Hunt achou que um bom modo de se preparar seria uma maratona interminável de álcool, maconha e cocaína. Além disso, ele transou com 33 aeromoças britânicas.

Acima: ainda foda

Já no circuito, Hunt apareceu se comportando de maneira bizarra. Após andar erraticamente pela pista, ele baixou suas calças e urinou na grade, perto das arquibancadas. O público, talvez sabendo que aquele pinto tinha acabado de traçar 33 aeromoças, aplaudiu.

Minutos antes da corrida, o hoje co-proprietário da Williams, Patrick Head, na época um jovem projetista, entrou na garagem errada e deu de cara com o piloto com seu macacão de corrida abaixado, trepando com uma garota japonesa. Ao notar a presença do intruso, Hunt apenas sorriu.

Então Hunt foi até a pista, de uma gorfada, entrou no carro e... terminou em terceiro e foi Campeão Mundial, ficando apenas um ponto a frente de Niki Lauda. E você ai, com orgulho de preencher tabelas de Excel no meio de uma ressaca.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A maldição do roqueiro cocô

GG Allin foi imortalizado como o frontman mais atroz da história do rock. Ele desperta repulsa e fascínio até hoje graças as suas lendárias performances no palco que envolviam nudez, automutilação, agressão, inserir o microfone em partes não ortodoxas do corpo e é claro, se divertir com as próprias fezes.

Mas ao mesmo tempo em que tudo essas peculiaridades chamaram a atenção do mundo para este personagem, também acabaram por eclipsar o fato que ele compôs algumas canções bem decentes ao longo de quase duas décadas de carreira. A maioria das pessoas que já ouviram falar em GG Allin sabe dizer que ele tinha um pinto microscópico, mas não consegue citar nenhuma música dele.

Porém existem aqueles que foram influenciados não pelo mito, e sim pela música de Allin. E alguns até mesmo quiseram pagar tributo a esta improvável criatura que caminhou pela terra untada em sangue e merda.

Social Frantoio – Bite You Scum

Aparentemente é isto que acontece quando dois maconheiros encontram um violão, uma flauta inca e tocam punk rock. Eu não achei nenhuma outra música ou qualquer informação sobre o Social Frantoio, então ao que parece esta é a sua única obra. E não é nada mal na minha opinião. Quatro acordes, uma flautinha pirada e improvisos em italiano. E toneladas de maconha.

Faith No More – I Wanna Fuck Myself

Boatos do mundo do rock já atribuíram a Mike Patton fetiches sexuais pouco higiênicos e recentemente ele perdeu a sensibilidade de uma das mãos ao se cortar com cacos de uma garrafa atirada ao palco. Ou seja, o bonitão tem muito mais a ver com GG Allin do que aparenta. Junto ao Faith No More, ele presta homenagem ao ídolo tocando este hino ao amor próprio.

Satan’s Acoustic Revolution - Bite You Scum

Ok, esses caras são uns babacas. A maquiagem é clichê, o baterista é horrível, o vocalista não consegue tocar e cantar (?) ao mesmo tempo e o outro mano tem dificuldade com os quatro acordes da canção. Mas esses quatro acordes são tão fodas que a música parece ser a prova de tudo e soa bem legal na maior parte do vídeo. O resto é um show de vergonha alheia.

Beck – Tough Fuckin Shit

Já se foi dito que os maiores perdedores do planeta são atraídos por GG como se ele fosse um imã. E o Loser em pessoa aparece aqui pra comprovar essa tese. Antes de ser um dos queridinhos da musica alternativa americana, Beck passou por maus bocados, vivendo em um galpão infestado de ratos e trampando em uma locadora. Foi nesse período que ele fez uma versão folk pra essa canção de auto-afirmação anti-social.

Moleque do Youtube – Die When You Die

Vejam só o poder da internet. O moleque acaba de aprender a ler, descobre sobre o roqueiro cocô em algum site e já manda ver um vídeo dele tocando um cover do novo ídolo. O pivete se confunde com as letras e acordes e parece meio constrangido em soltar sua voz pré-púbere ao entoar o refrão. Mas tudo bem, é só um pirralho se divertindo e parecendo adorável enquanto canta versos sobre aniquilar a humanidade infectando a todos com AIDS após contrair a doença de um travesti.

The Shanes – Bite You Scum

Banda alemã faz essa incrível versão em polca de uma das maiores músicas de não conformismo da história. O próprio GG Allin teria ficado pasmo com esses arranjos e os solos insanos de violino. O que eu posso dizer mais? Ficou do caralho.

Lemonheads – Laying Up With Linda

Provavelmente umas das canções mais bonitas de Allin, ganhou recentemente esse cover dos Lemonheads. Não difere muito da original, exceto pelo solo de guitarra no meio e pela melhor qualidade de gravação. “Laying Up With Linda” foi umas das inúmeras incursões acústicas de GG, um fã de Johnny Cash e Hank Williams. Essas influências o levariam a gravar “Carnival of Excess” um álbum de outlaw country lançado em 1995, dois anos após sua morte por overdose de heroína. É provavelmente sua melhor obra.

GG Allin acabaria por se tornar um dos grandes ídolos de Hank Williams III, neto do grande herói de Allin, fechando um estranho círculo de influências. A moral da história é: não julgue um artista apenas pela merda que ele faz no palco.

Aff, e esse cara tacando fogo na guitarra?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A origem da coxinha e outras histórias

Ao se sentar em um balcão de boteco e saborear uma coxinha você já se perguntou como essa maravilha foi inventada? O que? Não gosta de coxinha? Nem de boteco? Então cai fora escória, esse blog não é lugar de gente escrota. Para as pessoas de bem que apreciam essa incrível conquista da cozinha popular brasileira, descubra aqui a reposta desse e de outros mistérios como...

Esfiha: muito mais brasileira do que você pensa.


Seja na versão fechada ou aberta, a esfiha é junto com o kibe o mais popular petisco árabe do Brasil.

E também uma das maiores causas de azia.

Mas você sabia que é muito difícil encontrá-la em terras estrangeiras, inclusive no Líbano, país onde supostamente ela foi criada? Vá em frente, e procure esfihas num restaurante em Beirute. Você vai acabar comendo uma porção de batatas fritas. Qual o motivo disso?

A esfiha era uma receita caseira trazida por imigrantes libaneses ao Brasil no começo do século XX. A comida acabou se popularizando por aqui e ganhando variações de receitas e recheios e por fim se tornando item básico de cantinas escolares, redes de fast food e laricas. Em sua terra natal a esfiha não se popularizou a ponto de ser comercializada em larga escala e permaneceu como uma receita tradicional cozinhada por vovós em vilarejos.

O pão de queijo é a história de Minas Gerais

O magnífico Estado de Minas Gerais deu grandes contribuições para nossa nação, como a poesia de Carlos Drummond de Andrade, a música do Clube da Esquina e o futebol de Pelé.

Entre outras coisas

Mas nenhum desses feitos representa a história mineira tão iconicamente como o pão de queijo. Cada detalhe de sua concepção e popularização tem paralelo com um período histórico do Estado. Sua origem remonta entre os séculos XVIII e XIX. A goma de mandioca (polvilho) que era a um item básico da alimentação dos índios acabou sendo adotada em receitas de pães das fazendas locais. O ovo e o leite, itens introduzidos na região pelos portugueses, existiam em abundância durante a expansão da pecuária da então província. As cozinheiras escravas obrigadas a se virar com esses ingredientes tiveram um arroubo de genialidade e criaram o pão de queijo.

A partir do século XX, com o crescimento urbano e a industrialização, esse salgado deixou de ser apenas uma receita caseira e começou a ser comercializado, até se popularizar por todo o país na década de 60. Lembre-se de tudo isso na próxima vez que você comer um pão de queijo. É história que você estará mordendo.

Um príncipe (possivelmente retardado) inventa a coxinha

Ok, isso é muito mais uma lenda do que um fato, mas provavelmente a história real não deve ser tão interessante. No final do século XIX vivia na Fazenda do Morro Azul, na cidade de Limeira, o filho da Princesa Isabel e do Conde D’Eu. Numa atitude epicamente escrota da família real, essa criança era mantida afastada da corte por ser considerado deficiente mental. Mas qual era a doença que acometia esse pobre menino perdido? Ninguém sabe, mas aparentemente envolvia ser tarado por coxa de galinha, pois era só isso que ele comia.

O nosso pequeno príncipe causou um verdadeiro holocausto galináceo na fazenda, exigindo comer nada além dessa parte especifica do bicho. Asas e peito eram descartados por ele.

Um dia não havia mais coxas suficientes para uma refeição e o moleque não parava de chorar. A cozinheira resolveu então transformar uma galinha inteira em coxa, moldando massa em um formato parecido e utilizando as demais partes da ave pra fazer o recheio. O pentelho provou e adorou. Logo os demais empregados também comeram e aprovaram. Por fim até a Princesa Isabel se deliciou com a invenção e pediu que sua receita fosse fornecida aos cozinheiros da Corte. É isso mesmo, a mesma pessoa que assinou a Lei Áurea também pode ter introduzido a coxinha no Brasil. Isso sim é uma heroína nacional.

E esse cara que ganha feriado

A empadinha...

Não descobri nada de muito interessante sobre as empadas. Apenas que são mini-tortas que as pessoas comiam na época da quaresma. E que são deliciosas.

E os enroladinhos também

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O destino de coadjuvantes sem graça dos Trapalhões

Quando eu estava na 4° série, o trabalho final de Educação Artística foi representar um programa de TV na frente da sala. Eu e meu grupo logicamente escolhemos o melhor de todos os tempos: “Os Trapalhões”. Tivemos que sortear os papéis porque todo mundo queria interpretar Didi ou o Mussum (exceto um moleque, mas ele era meio racista). Por azar eu acabei ficando com um personagem coadjuvante. Não um coadjuvante legal, como Tião Macalé ou o Sargento Pincel, mas um sem graça que quase não tinha falas. Nós tiramos um B e essa foi a única experiência como ator na minha vida.

Não tiraram foto da peça, então vai essa da minha primeira comunhão

Relembrando essa história, refleti a respeito das dezenas de atores que figuraram nos programas e filmes da trupe de Renato Aragão e pensei em escrever a respeito deles. Alguns importantes como Carlos Kurt, que chegou a participar de um filme do James Bond, outros nem tanto, como Duda Little e o grupo Dominó. Mas em meio a todas as histórias que pesquisei nenhuma me fascinou tanto como a saga de Andréia Sorvetão e Conrado.

Quem?

Se você tem menos de 20 anos, você não deve saber que existiu um período chamado “Final da Década de Oitenta/ Início da de Noventa”, também conhecido como “Era de Ouro do Sabadão Sertanejo”. Era uma época divertida, mas um tanto quanto brega. Em meio a cores berrantes e ombreiras surgiram as Paquitas, assistentes de palco do Xou da Xuxa que abasteciam a sede de ninfetas do homem brasileiro. Uma deles era Andréia Sorvetão.

Mais ou menos na mesma época, o cantor Conrado começou a fazer sucesso. Ele fazia o tipo ídolo teen, cara de bobo, música melosa e calças apertadas. Descoberto por Gugu, ele foi emplacou alguns hits. Aqui uma amostra da música dele.


O que faziam nos Trapalhões?

Conrado apareceu pela primeira vez ao lado de Didi e companhia no filme “Os Trapalhões na Terra dos Monstros” de 1989. No ano seguinte, após a morte de Zacarias, ele passou a integrar o elenco do programa. Conrado servia de escada pros outros comediantes, supostamente interpretando ele mesmo, um bonitão que pegava a mulherada geral.



Nessa mesma fase do programa Andréia Sorvetão atuava como coadjuvante nos quadros. Em 1992 ela ganhou mais destaque interpretando a secretária da Agência Trapa.



Em algum momento nesse período eles começaram a namorar e acabaram se casando. Eu não sabia da existência desse casal até dias atrás e essa foi uma das informações mais impactantes que eu já recebi. Talvez eu esteja exagerando, mas o fato de duas caricaturas vivas do meu inconsciente infantil desaparecerem em um limbo de esquecimento e ressurgirem duas décadas depois casados e com filhos foi tão chocante quanto descobrir que a Gretchen é irmã da Sula Miranda.

Isso ainda me deixa atônito

O que eles fizeram depois?

Em 1994, a tragédia abate a nação com a morte de Mussum. Os dois trapalhões remanescentes reformulam o programa, que não duraria muito mais, e o casal deixa a atração.

No mesmo ano Sorvetão pousa pra Playboy. Na minha visão o ensaio não faz muito jus aos atributos dela. A partir daqui as coisas começam a ficar nebulosas pra mim e começa o período de “eu não lembro de porra nenhuma que eles fizeram”. Isso aqui foi o que eu descobri pesquisando:

- Em 1995 Conrado gravou um álbum que foi produzido por Leandro, da dupla Leandro & Leonardo, e voltou as paradas com a música “Quero você” (???)

- Andréia Sorvetão apresentou alguns programas infantis, participou da novela “Malhação” e co-apresentou o programada da Xuxa enquanto a rainha dos baixinhos estava grávida.

- Após realizar um álbum em Portugal, Conrado tem uma música de sua autoria gravada por Leandro & Leonardo no último disco da dupla. Andréia Sorvetão participa de um álbum da Xuxa.

É... tudo isso é muito bom pra eles, mas agora é quem vem as informações mais interessantes. Em 2002 o casal posa nu no mesmo mês para duas revistas diferentes. Ela na Sexy, ele na G Magazine. Dessa vez o ensaio faz jus aos atributos físicos de Sorvetão. Eu não posso dizer nada sobre o de Conrado, já que eu não o vi, mas digo que a frase CONRADO POSOU PRA REVISTA G me deixa pasmo.

Mas não tanto quanto isso, puta merda

E agora chegamos a uma encruzilhada que toda celebridade do passado deve passar. Se converter ao reino da pornografia ou ceder a saída fácil do sucesso no mundo gospel?

E o caminho escolhido foi...

Ex-paquita e esposo sucumbiram a tentação da música gospel. Hoje eles cantam, louvam e pregam a palavra do Senhor vivem vidas saudáveis e felizes. E por mais clichê e medíocre que isso seja, esse destino meio que me reconforta, porque mostra que o mundo tem lugar até mesmo para coadjuvantes sem graça dos Trapalhões, como eu fui um dia. Amém.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O que eu aprendi com inspiradores PowerPoints cristãos

Quando Deus em sua infinita sabedoria criou a internet, ele nos deu o livre arbítrio para que escolhêssemos a melhor forma de utilizá-la. Enquanto a maioria das pessoas escolheu o caminho da pirataria, desenhos pornográficos e de emitir suas inúteis opiniões em sites de notícias, as nossas mães optaram por algo mais singelo.

Inicialmente elas apenas utilizavam a rede mundial para copiar receitas do site da Ana Maria Braga, mas logo encontraram sua verdadeira paixão: correntes de PowerPoint com mensagens inspiradoras. É um fato estatístico que para cada adolescente batendo bronha vendo um site de putaria, há uma mulher de meia-idade entretida diante de slides que tratam de auto-ajuda, animais fofinhos e Jesus Cristo. E é sobre o ultimo tema que irei tratar.

Após alguns meses de desemprego e perdição, eu comecei a me perguntar o que estava errado em minha vida. Em uma madrugada de tédio e agonia encontrei alguns desses slides de PowerPoint na minha área de trabalho, provavelmente baixados pela minha mãe. Ou talvez colocados ali pelo próprio Senhor, buscando me guiar para a iluminação. Então eu resolvi abrir minha mente e tentar apreender.

Com Deus não se brinca!



Resumo: Um monte de gente que zuou, duvidou e causou com Deus se fudendo grandão. Entre os notáveis estão John Lennon, Tancredo Neves, Cazuza e uma galera que curtia aloprar no trânsito com uma dúzia e meia de ovos no porta-malas.

O que eu aprendi? Que Deus não sabe brincar.

Eu não sei exatamente se ele sofre algum tipo de autismo, ou se o lance de reinar absoluto sobre o universo subiu a cabeça, mas Deus não tolera piadinhas, é incapaz de detectar ironia numa fala humana e jamais leva desaforo pra casa, nem que isso custe a vida de um bando de gente.

Ou a presidência de um país

Então devemos tratar Deus como aquele moleque bobão que era maior que todo mundo no playground: com cuidado, sensibilidade e sem muitos movimentos bruscos. Também aprendi que John Lennon foi executado segundos depois de dizer que os Beatles eram maior que Cristo, e não anos depois.

Você sabia que Deus gosta de “loucos”?



Resumo: Apresenta diversos exemplos de pessoas que desafiaram a lógica humana para fazer valer a vontade de Deus. Entre eles Moisés, Josué e Jesus.

O que eu aprendi? Que toda uma religião foi criada baseada em delírios e insanidade.

Aparentemente a fé é uma forma de transtorno psicológico que nos faz falar com objetos inanimados, sofrer alucinações e cantar e dançar durante dias. Tipo um ecstasy.

A maior rave de Israel!

Obviamente por ser em si um argumento ilógico e sem fundamentos, Deus aprecia este tipo de comportamento em humanos. Então se um dia você sentir que está perdendo a cabeça e aquele pôster do Corinthians campeão da Copa do Brasil 95 começar a falar com você, não se preocupe, você está no caminho certo para a redenção.

As três árvores



Resumo: Três pequenas árvores sonham em ser um dia transformadas em: a) um baú cheio de jóias b) um navio c) virar uma puta árvore. Elas acabam virando: a) um cocho de animais (onde Jesus nasceu) b) uma barquinho de pesca (onde Jesus trampou) c) uma cruz (adivinha qual?)

O que eu aprendi? Er... que seus sonhos se realizam mesmo depois que você foi morto e mutilado... e que isso talvez envolva um judeu morto pregado em você.

Confesso que esse me deixou um pouco confuso. Mas acho que a mensagem é que se você fracassar em vida, seus restos mortais irão seguir em frente e realizar suas bizarras fantasias de infância.

Fizeram até um filme a respeito

E mesmo que as coisas não saiam exatamente como o planejado, há sempre uma forma de distorcer a história a ponto de parecer que tudo acabou bem. Certo?

O Tempo de Deus



Resumo: Um nadador prestes a mergulhar de um trampolim se distrai com a própria sombra, começa a pensar em Jesus e percebe que estava prestes a cair em uma piscina vazia.

O que eu aprendi? ?????????

Esse parece conter uma daquelas mensagens ocultas de código bíblico que só teólogos conseguem decifrar. Além disso, eu me distraí pelos magníficos efeitos de transição e planos de fundo dos slides. Mas acho que a mensagem é que Cristo morreu para que nós não mais cometêssemos atos tão retardados como intolerância, violência e pular em piscinas vazias.

"Pelo amor de Deus, secador de cabelo no chuveiro não né gente?"

Então em linhas gerais o que eu aprendi nesta catequese virtual foi: Deus não tem senso de humor, é totalmente a favor de doidos e nossos sonhos sempre se realizam, nem que pra isso precisemos nos tornar zumbis mutilados. E a não mergulhar em piscinas sem água, puta que pariu.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Momentos bizarros em novelas dos anos 90

Houve uma época em que crianças não desperdiçavam seus dias na internet, falando merda no MSN, praticando bullying virtual no Orkut e se exibindo para pedófilos na twittcam. Elas desperdiçavam seus dias na frente da TV, vendo Xuxa, Sessão da Tarde e novelas. Não era tão ruim. Eu tenho boas lembranças daqueles tempos. Personagens marcantes como Tonha da Lua, Dona Armênia e seus três filhos, Gino, Gerson e Gera; minha avó falando com os atores como se eles pudessem ouvi-la através da televisão; e é claro a maior história de amor de todos os tempos, entre o mecânico Raí e a manicure Babalu.


Mas além desses bons momentos, houveram estranhas preciosidades que só poderiam ser oferecidas pela teledramaturgia brasileira. Momentos bizarros que ainda me perseguem após anos de saudável distância da televisão aberta.

Flor alucinógena faz Fabio Junior te comer

Novela: Pedra sobre Pedra (1992)

Bem óbvio, mas não poderia ficar de fora. Na pequena cidade de Resplendor, o fotógrafo Jorge Tadeu, interpretado por Fábio Junior, se divide em duas atividades: comer todas as mulheres possíveis e urinar em uma planta na praça da cidade. Isso até alguém matar o sujeito. A morte de Jorge Tadeu se torna o grande mistério do país de Fernando Collor. Afinal quem era o assassino? Algum corno provavelmente.

Na verdade, foi essa senhora


O absurdo entra em cena quando a plantinha regada diariamente pela urina do fotógrafo se torna uma enorme árvore carregada de flores após ser atingida por um raio. Muito para o desgosto dos homens da cidade, as viúvas de Tadeu formam um culto ao redor da árvore. Então uma delas tem a idéia de comer uma flor e recebe a visita de falecido. Então é claro, ocorre necrofilia espírita no horário nobre.


Eu não lembro exatamente como a história terminou, mas acho que outro raio atinge a árvore e destrói ela, ou algo assim. Então pra compensar, assistam a essa cena epicamente bizarra da mesma novela, aonde o vilão Cândido Alegria fala com o diabo, explode e vira pedra.



Eri Johnson gótico idolatra um pedaço de pão

Novela: De Corpo e Alma (1992/93)

Todo mundo se lembra dessa novela por causa do assassinato de Daniela Perez por Guilherme de Pádua. Isso meio que eclipsou da memória das pessoas do que porra a trama era a respeito. Pois estou aqui para lembrar a todos que era sobre Victor Fasano rebolando de sunga num clube de mulheres e Eri Johnson sendo muito estranho.

A autora Glória Perez é famosa por levar temas e polêmicas atuais para as tramas de suas novelas. E por atuais eu quero dizer com ao menos uma geração atraso. Ela misturou islamismo e clonagem em “O Clone” e internet e ciganos em “Explode Coração”. Aqui o lance é transplante de órgãos, góticos e Victor Fasano rebolando de sunga.

Eri Johnson era Reginaldo, um filhinho de mamãe que resolve pintar a parede do quarto de preto. Ele era apaixonado por Yasmim, personagem de Daniela Perez. Era uma relação um pouco perturbadora, como é ilustrada pelo vídeo abaixo.



Um momento marcante é quando Reginaldo rouba o resto de um pão que Yasmim comeu e guarda como uma relíquia. Ele passa dias trancado em seu quarto negro, idolatrando aquele pedaço de comida velha. Pelo tom da novela, essa paixão era algo romântico e bonitinho. E não um lance doentio que poderia, sei lá, acabar em assassinato.


Osmar Prado apalpa bosta de galinha (por culpa de Antonio Fagundes)


Novela: Renascer (1993)


Originalmente a lâmpada do gênio é uma lenda um pouco diferente do que é retratada pelos desenhos da Disney. Ao invés de um sujeito azul e camarada, existia um demônio aprisionado em uma garrafa, escravizado por quem a possuir. Existem lendas semelhantes a essa fora do folclore árabe, inclusive no Brasil. Isso aparece na novela Renascer (aquela que tinha uma hermafrodita). Na trama, boatos atribuem o suposto corpo fechado do personagem de Antônio Fagundes, José Inocêncio, a um capetinha engarrafado. Eu cagava de medo toda vez que aquele treco aparecia.




Tião Galinha (Osmar Prado) interessado em possuir os mesmos poderes, pergunta a Inocêncio como arrumar uma parada dessas. A receita que ele passa é: colher um ovo de galinha preta no momento em que ela botar, sem deixar que ele toque o chão. O ovo deve ser chocado por um sapo e dele nascerá o capetinha. O lance é que Inocêncio comprou a garrafinha com o demônio de plástico na feirinha e só diz essas merdas pra causar com Tião. O que ele não imaginava é que o cara seria ingênuo a ponto de ficar dia e noite com uma galinha preta debaixo do braço a espera do ovo, pondo em risco seu emprego, casa e casamento.


Burrão. Todo mundo sabe que o truque é enfiar um facão no pé de jequitibá

Após zoar com Tião por uns tempos, a galera começa ficar a preocupada com a sanidade mental do caboclo, até que alguém sugere que ele caiu numa pegadinha de Inocêncio. Ah, mas essa cabra fica uma fera! Irado, ele exige satisfações. O personagem de Fagundes escapa da situação colocando um ovo debaixo da galinha preta, sem que Tião visse, afirmando que ela acabara de botar. Tião lamenta seu azar afirmando: “Depois de tanta bosta que ela soltou na minha mão, foi justo agora que ela botou”. Eu tinha seis anos e chorei de rir por que alguém tinha acabado de dizer “bosta” na televisão.

Raul Cortez e sua bad trip sinistra

Novela: Mulheres de Areia (1993)

Raul Cortez interpretava Virgílio, vice-prefeito de Pontal D’Areia e dono do maior hotel da cidade. Ele fica muito puto quando o prefeito Breno (Daniel Dantas) proíbe banhos de mar devido à poluição das águas. Virgílio inicia então uma campanha de difamação, espalhando espantalhos pelas praias usando roupas semelhantes a do prefeito, demonstrando que ele estava espantando turistas da cidade. Esta traição política provoca alguma coisa estranha na cabeça de Virgílio, que começa a ter alucinações. Remorso? Senilidade? Flashbacks de épocas mais caóticas? Eu não sei, mas dê uma olhada nessa porra.



Puta merda, isso ainda é assustador. Um espantalho perseguindo você por todo lugar. Imagine ver isso com seis anos. Pode apostar que eu não fui mijar de madrugada na noite que passaram esse capítulo. Sem brincadeira você ta lá de boa, olha pro lado na janela e AHHHHHH.


Eu vou estar nos seus sonhos. Eternamente

quarta-feira, 2 de junho de 2010